Naquela noite cheguei à encruzilhada fatal. Se tivesse empreendido a minha descoberta com espírito mais nobre, se tivesse me arriscado naquela experiência quando sob a influência de aspirações generosas ou piedosas, tudo poderia ter sido diferente, e, daquelas agonias tão intensas quanto as da morte e do nascimento, eu poderia ter emergido como um anjo, ao invés de um demônio. A ação da droga não discriminava; não era em si diabólica nem divina; ela apenas arrombava as portas da prisão da minha vontade; e como os cativos de Filipos, aquele que estava mais pronto foi o primeiro a fugir. Naquele momento minha virtude cochilava; minha maldade, mantida desperta pela minha ambição, estava alerta e pronta para aproveitar a ocasião; e a criatura que foi projetada foi Edward Hyde. Daí que, embora eu tivesse agora duas personalidades, bem como duas aparências, uma delas era totalmente maligna, e a outra era ainda o velho Henry Jekyll, aquele misto incongruente que eu já perdera as esperanças de mudar e aperfeiçoar. O movimento ocorrido, portanto, foi totalmente para pior.Robert Stevenson, O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde,
Tradução de Braulio Tavares A narrativa de Stevenson sobre o médico inglês é talvez a mais famosa história de "duplos" da literatura universal, de tal modo que boa parte das pessoas que conhecem a história do Doutor Jekyll e do Mr. Hyde provavelmente nunca leu o livro propriamente dito. O que é ótimo, e ao mesmo tempo uma lástima: ótimo por ser um daqueles casos em que a história, de tanto que tem a dizer ao seu público, ganha vida própria e se descola de suas condições iniciais e até de seu autor. Mas uma lástima justamente pela riqueza dessas condições iniciais e dessa relação com o autor, da forma onírica como o livro foi concebido e realizado.
Toda a trama, ou melhor, toda a multiplicidade de cenas que constitui a trama apareceu a Stevenson primeiramente num sonho, ou pesadelo. O que mostra, como nos faz notar o tradutor Braulio Tavares na introdução a esta nossa edição, como o tema maior do livro , "a dualidade das mentes, o Eu que contém em si um Outro, já estava presente no momento mesmo da geração das imagens que deflagraram a narrativa".
Do filme de Rouben Mamoulian
Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1931)
Depois disso, Stevenson escreveria a história num ritmo frenético, durante dias seguidos, fascinado com a ideia de que sua mente teria lhe mostrado uma história que ele somente acompanhava, curioso. O resultado foi uma narrativa sombria, fantástica não só no motivo mas também na forma de condução, e cheia de ambiguidades e contradições entre os diversos momentos da história. Ao que favorece a própria estrutura do romance, isto é, em diversas cenas e relatos dos envolvidos nos acontecimentos: não se pode esperar que o dr. Jekyll dê a mesma versão sobre os acontecimentos que deu o advogado que segue o caso, ou uma testemunha do crime, enfim. E neste ponto a maestria do autor sobre o fantástico se revela, pois, mais do que a descrição de um evento sobrenatural, ele se torna uma situação que, pela multiplicidade de visões que o descrevem, cresce e se contradiz quanto mais tentam torná-la verossímil.
Esta edição foi fruto da pesquisa trabalhosa de Braulio Tavares, principalmente sobre dados históricos que se perderam e que foram deixados de fora em traduções anteriores. A pesquisa passou ainda por notas e textos de Stevenson sobre o processo de criação do romance, textos de sua família e de pensadores de seu tempo, todos compilados e traduzidos num formidável apêndice: dois textos do próprio autor, Um capítulo sobre o sonho, particularmente notável pela minuciosa análise a que o autor submete seu próprio processo criativo em suas relações com seus sonhos, e Esse outro Eu, meu companheiro. Os outros textos são Quando ocorreu o pesadelo de Mr. Hyde, escrito por seu filho adotivo R. L. Stevenson, e Recordações de Mr. Hyde, de sua esposa Fanny Van de Grift-Stevenson. A personalidade multiplex, de Frederic Myers, e As desintegrações do ego, de Henry Maudsley, estudos de dois professores e estudiosos da psicologia humana, contemporâneos do autor, encerram este apêndice, mostrando a relevância que Stevenson teve, no campo da ficção, para os temas discutidos em seu tempo, e fechando o quadro de reflexões ligadas ao romance que temos o prazer de lançar.