Poesia e romantismo ingleses

A editora Hedra lança, neste finzinho de ano, a caixa "Poesia romântica inglesa", com edições bilingues de Lord Byron. John Keats, William Blake e Percy Shelley.

Dos quatro poetas românticos, compilados nesta nossa nova coleção, Lord Byron (1788-1824) é provavelmente o mais conhecido. E também provavelmente o que mais se encaixa no ideal comum que existe sobre o romantismo: arrebatado, entusiasmado, exilado constante e morto de forma trágica e heroica.

Mas contraditórios, loucos, impulsivos, muitas vezes à beira do irracionalismo e da religiosidade, os românticos em geral (e seus emblemáticos representantes ingleses), em sua busca essencialmente subjetiva, expressaram-se em diversos tons, sem mudar as premissas ou problemas fundamentais de suas obras. Citemos William Blake (1757-1827), a título de exemplo, para contrapor ao famoso romantismo byroniano. Tudo que em Byron surge como arroubo de emoção, como impulso desenfreado em direção ao mundo (lembremos que Byron morreu na Grécia, aos 36 anos de idade, organizando uma milícia para lutar pela independência do país que, então, se encontrava sob o domínio turco), ou como paixão ardorosa pelas muitas mulheres de sua vida, em Blake aparecerá sob outros sinais: os do misticismo, da religiosidade e da contemplação do Divino. Divino este que, importante notar, é uma descoberta estritamente pessoal do autor: isolando-se da sociedade, como gênio incompreendido ou inclinado ao infinito, à transcendência, o poeta romântico faz-se profeta, mediador entre o mundo que tenta negar e o Deus que, sozinho, escuta e transcreve em seus versos. O título que vem nesta caixa, O casamento do Céu e do Inferno, exemplifica bem todas essas questões.

Blake

[Ilustração feita por Blake para O casamento...]

Mas estes são casos mais extremos, e específicos. Aqui, nos servem como um panorama. Se passarmos para a poesia de John Keats (1795-1821) e de Percy Shelley (1792-1822), bem como para outros românticos de outros países e épocas, encontraremos temáticas semelhantes - a natureza, a morte, o divino, o profético - tratadas de outras maneiras. Porque, se há um conceito fundamental a qualquer romantismo, desde o mais melancólico até o mais arrebatado, é o de Gênio, a subjetividade criadora que, em seus arroubos de inspiração, gera e concebe a arte, como Deus. Cada romântico cria o seu Deus, seu inferno, seus amores, e a tragédia que encerra sua vida.

Todas as edições são bilingues, permitindo aos interessados, que não dominam à língua inglesa, através da comparação ou de uma leitura rápida, terem uma noção ou impressão da força do texto inglês. Ou simplesmente fruir das traduções de Ivo Barroso  e Péricles da Silva Ramos, este último tradutor de três dos livros compreendidos neste nosso lançamento, frutos de uma pesquisa e dedicação às contradições e delírios do romantismo da Inglaterra.

Lançamento dos "Contos de Sebastopol", de Liev Tolstói

Convidamos a todos para o lançamento dos Contos de Sebastopol, de Liev Tolstói, inéditos em língua portuguesa, que acontecerá amanhã no Rio de Janeiro.
Relato dos horrores da guerra, e dos movimentos psicológicos dos homens que a fazem, esses contos, escritos a partir da experiência de Tolstói no campo, já anunciam toda a genialidade e a problemática do autor de "Guerra e paz", na integração do homem aos eventos de seu tempo, na sua relação com a morte, no seu convívio com os outros homens.

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O estranho caso de Robert Stevenson

Naquela noite cheguei à encruzilhada fatal. Se tivesse empreendido a minha descoberta com espírito mais nobre, se tivesse me arriscado naquela experiência quando sob a influência de aspirações generosas ou piedosas, tudo poderia ter sido diferente, e, daquelas agonias tão intensas quanto as da morte e do nascimento, eu poderia ter emergido como um anjo, ao invés de um demônio. A ação da droga não discriminava; não era em si diabólica nem divina; ela apenas arrombava as portas da prisão da minha vontade; e como os cativos de Filipos, aquele que estava mais pronto foi o primeiro a fugir. Naquele momento minha virtude cochilava; minha maldade, mantida desperta pela minha ambição, estava alerta e pronta para aproveitar a ocasião; e a criatura que foi projetada foi Edward Hyde. Daí que, embora eu tivesse agora duas personalidades, bem como duas aparências, uma delas era totalmente maligna, e a outra era ainda o velho Henry Jekyll, aquele misto incongruente que eu já perdera as esperanças de mudar e aperfeiçoar. O movimento ocorrido, portanto, foi totalmente para pior.

Robert Stevenson, O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde,
Tradução de Braulio Tavares

 A narrativa de Stevenson sobre o médico inglês é talvez a mais famosa história de "duplos" da literatura universal, de tal modo que boa parte das pessoas que conhecem a história do Doutor Jekyll e  do Mr. Hyde provavelmente nunca leu o livro propriamente dito. O que é ótimo, e ao mesmo tempo uma lástima: ótimo por ser um daqueles casos em que a história, de tanto que tem a dizer ao seu público, ganha vida própria e se descola de suas condições iniciais e até de seu autor. Mas uma lástima justamente pela riqueza dessas condições iniciais e dessa relação com o autor, da forma onírica como o livro foi concebido e realizado.

 Toda a trama, ou melhor, toda a multiplicidade de cenas que constitui a trama apareceu a Stevenson primeiramente num sonho, ou pesadelo. O que mostra, como nos faz notar o tradutor Braulio Tavares na introdução a esta nossa edição, como o tema maior do livro , "a dualidade das mentes, o Eu que contém em si um Outro, já estava presente no momento mesmo da geração das imagens que deflagraram a narrativa". 

 

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Do filme de Rouben Mamoulian Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1931)

 

Depois disso, Stevenson escreveria a história num ritmo frenético, durante dias seguidos, fascinado com a ideia de que sua mente teria lhe mostrado uma história que ele somente acompanhava, curioso. O resultado foi uma narrativa sombria, fantástica não só no motivo mas também na forma de condução, e cheia de ambiguidades e contradições entre os diversos momentos da história. Ao que favorece a própria estrutura do romance, isto é, em diversas cenas e relatos dos envolvidos nos acontecimentos: não se pode esperar que o dr. Jekyll dê a mesma versão sobre os acontecimentos que deu o advogado que segue o caso, ou uma testemunha do crime, enfim. E neste ponto a maestria do autor sobre o fantástico se revela, pois, mais do que a descrição de um evento sobrenatural, ele se torna uma situação que, pela multiplicidade de visões que o descrevem, cresce e se contradiz quanto mais tentam torná-la verossímil.

Esta edição foi fruto da pesquisa trabalhosa de Braulio Tavares, principalmente sobre dados históricos que se perderam e que foram deixados de fora em traduções anteriores. A pesquisa passou ainda por notas e textos de Stevenson sobre o processo de criação do romance, textos de sua família e de pensadores de seu tempo, todos compilados e traduzidos num formidável apêndice: dois textos do próprio autor, Um capítulo sobre o sonho, particularmente notável pela minuciosa análise a que o autor submete seu próprio processo criativo em suas relações com seus sonhos,  e Esse outro Eu, meu companheiro. Os outros textos são Quando ocorreu o pesadelo de Mr. Hyde, escrito por seu filho adotivo R. L. Stevenson, e Recordações de Mr. Hyde, de sua esposa Fanny Van de Grift-Stevenson.  A personalidade multiplex, de Frederic Myers, e As desintegrações do ego, de Henry Maudsley, estudos de dois professores e estudiosos da psicologia humana, contemporâneos do autor,  encerram este apêndice, mostrando a relevância que Stevenson teve, no campo da ficção, para os temas discutidos em seu tempo, e fechando o quadro de reflexões ligadas ao romance que temos o prazer de lançar.

 

O mestre do conto, Guy de Maupassant

Por Realismo, normalmente, evocam-se a título de exemplo textos como Mme. Bovary, de Flaubert, pela sua crítica minuciosa aos costumes burgueses, pela denúncia da hipocrisia moral, pela riqueza em detalhes (sórdidos, muitas vezes), enfim, pelo interesse bastante científico a que se propõe a literatura, fazendo das obras literárias quase tratados sociológicos ou retratos dos costumes e do cotidiano. E principalmente: comprometidos com uma noção objetiva de Realidade.

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Citei Flaubert por ser um "tipo ideal", onde todos os procedimentos que caracterizaram tal corrente se encontram, bem colocados e equilibrados; mas uma ideia de escola ou movimento qualquer nunca pode ser levada a sério demais. Veja-se o caso de Émile Zola, que aplicou com ainda mais afinco as ideias de experimentação científica, criou padrões para o comportamento de suas personagens e, embora compartilhasse as concepções de Flaubert e convivesse com ele, acabou sendo associado a um outro movimento, dito Naturalismo - mas partindo das mesmas premissas. No Brasil o caso é mais curioso se lembrarmos que o nosso "primeiro romance realista" foi Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis - um romance realista, vejam só, narrado em primeira pessoa por um defunto.

Maupassant foi muitas vezes comparado a Machado de Assis, seu contemporâneo dos trópicos, justamente por terem partido das premissas de um "realismo ideal" para produzir uma obra bem diferente, associando elementos fantásticos, utilizando a detalhada descrição realista em narrativas psicológicas, tornando mais complexas as relações entre as personagens e seu meio - relação cara a Flaubert e a Zola, por exemplo. E isso sem nunca abandonar a crítica social e o compromisso  para com os eventos e questões de seu tempo.

O conto "Bola de Sebo", que dá título ao nosso lançamento e que foi a grande estreia literária de Maupassant, é um bom exemplo dessas preocupações (e habilidades) do autor. Antes de mais nada por tratar do fracasso francês da Guerra Franco-Prussiana, que deflagraria a Terceira República Francesa, mas com o enfoque numa prostituta, que se encontra com personagens aristocráticas e burguesas de sua cidade ao fugirem todos da ocupação prussiana. E é justamente nesse encontro, onde, em teoria, todos são franceses e estão em iguais condições de fugitivos, que Maupassant põe a observação realista funcionando sobre as relações da sociedade com uma figura moralmente digna, mas desprezada, e sobre o desenvolvimento de suas ações e ideias: desde quando dependem da prostituta para conseguirem fugir, até quando é ela que precisa deles. A observação dos comportamentos sociais faz dos textos de Maupassant denúncias minuciosas da hipocrisia, e revelam na soma dos acontecimentos uma ironia sutil, e triste.

Neste nosso volume, outro conto notável por seu "realismo heterodoxo" é "O Horla": partindo de uma premissa fantástica, narrando em primeira pessoa na forma de um diário, Maupassant descreve cada passo do enlouquecimento e da paranoia de sua personagem, desde sua primeira suspeita até o momento em que, convencido de sua insanidade, tenta justificá-la racionalmente através de seres invisíveis:

7 de agosto Dormi tranquilo. Ele bebeu a água de minha garrafa, mas não perturbou absolutamente meu sono.
Pergunto-me se estou louco. Caminhando à tarde sob um luminoso sol, ao longo do rio, fui assaltado por dúvidas concernentes à minha razão, não dúvidas vagas como eu tivera até aqui, mas dúvidas precisas, absolutas. Vi loucos; conheci alguns que permaneciam inteligentes, lúcidos, inclusive clarividentes sobre todas as coisas da vida, salvo sobre um ponto. Falavam de tudo com clareza, com leveza, com profundidade, e, de repente, seu pensamento, tocando o recife de sua loucura, despedaçava-se, espalhava-se e afundava nesse oceano apavorante e furioso, cheio de grandes ondas, névoas, borrascas, a que denominamos "demência".
É  verdade, eu creria estar louco, absolutamente louco, se não estivesse consciente, se eu não conhecesse perfeitamente meu estado, se não o perscrutasse, analisando-o com uma completa lucidez. Eu não seria, em suma, senão um alucinado raciocinando.

Com "clareza, leveza e profundidade", aliás, escreveu o próprio Maupassant, para revistas, compilações e principalmente jornais, até que ele mesmo, ironicamente, seria acometido pela insanidade da sífilis, morrendo por volta dos 40 anos de idade. Mas até lá documentou e representou a sociedade de seu tempo com minúcias e, principalmente, com um ritmo que marcaria o ápice da narrativa realista. Se  esta teve seu auge no final do século XIX, e se seu eixo foi de fato a França, Ezra Pound poderá nos lembrar, em seu ABC da literatura, que Maupassant foi a sua máxima expressão.

Noam Chomsky e suas notas

Chomsky

"Podemos, claramente, adotar a posição de não nos preocuparmos com os problemas que as pessoas têm hoje, e querer pensar somente num possível amanhã. Tudo bem, mas isso implica não finjirmos que temos qualquer interesse pelos seres humanos e seus destinos, e que nos mantenhamos fechados em nossos seminários e nos cafés frequentados por intelectuais, junto com outros privilegiados. Ou, então, podemos tomar uma posição muito mais humana: quero trabalhar, hoje, para construir uma sociedade melhor amanhã --- a posição anarquista clássica, completamente diferente dos slogans colocados nessa questão. Essa posição está correta e levará ao apoio das pessoas que têm problemas hoje, defendendo: o reforço da legislação de saúde e segurança, a generalização dos seguros de saúde em níveis nacionais, o apoio dos sistemas assistenciais para aqueles que necessitam etc... Isso não é suficiente para organizar um futuro melhor, mas é uma condição necessária. Qualquer coisa além disso receberá o bom e merecido desprezo das pessoas que não podem ter o luxo de desconsiderar as circunstâncias sob as quais vivem e tentam sobreviver."


Relembrando hoje, aqui, o o livro que lançamos há coisa de um mês ou dois, "Notas sobre o Anarquismo", do pensador norte-americano Noam Chomsky, considerado pelo The New York Times "pelo poder, alcance, inovação e influência, indiscutivelmente o mais importante intelectual vivo hoje". O livro reúne dois artigos e oito entrevistas acerca (como o título sugere) do anarquismo, suas possibilidades, conquistas e perspectivas,  principalmente as práticas, num tom leve e bem articulado do intelectual que leciona já há cinquenta anos. Em uma época de tantas conturbações e crises, as ideias de Chomsky vêm muito a próposito, não como bíblia, mas como discussões inquietantemente polêmicas.

 

Alguns lançamentos

Aproveitando esse novo formato do blogue (não custa nada tentar, não é mesmo?), vamos comentar alguns livros que estão sendo lançados, e que daqui a pouco serão levados às livrarias de São Paulo... e, com um pouco mais de atraso, claro, de todo o Brasil.


Para começar, temos um novo juvenil de Roberto Barbato Jr., e com ilustrações de Otávio Zani, "Mistério na Zona sul", de cerca de cento e cinquenta páginas. A história é protagonizada por três jovens jornalistas, metidos num bom enredo urbano e policial: uma misteriosa denúncia anônima (um envelope deixado sobre a mesa, no saguão d' "A Gazeta") delata um horrível e estranho crime, que... bem, para não adiantar muito, basta dizer que é um crime contra crianças. E é essa a deixa que o escritor Roberto Barbato, sociólogo e advogado de formação, usou para debater questões importantes sobre a condição da criança, com a profundidade de quem conhece as questões que trabalha, refletindo inclusive sobre a nossa história. O melhor: num enredo policial envolvente, voltado para o público juvenil, aquele que se diz adolescente mas no fundo quer ganhar presente do Dia das Crianças.
 Aos curiosos, o escritor escreve no blogue http://lapisimpreciso.blogspot.com 

Mas, ainda em matéria de (boa) literatura, temos também um outro lançamento... embora o texto seja de quase cem anos atrás - continuamos preocupados com a tradução e divulgação de clássicos da literatura universal:
São os "Contos de piratas", com cerca de cento e vinte páginas, do famoso Sir Arthur Conan Doyle. Quer dizer, talvez famosa mesmo seja a sua principal personagem, o detetive Sherlock Holmes, que de tanto sucesso que obteve deixou praticamente todas as outras obras de Conan Doyle à sua sombra. O que é uma pena, verdade seja dita, pois com a mesma habilidade com que  desenhou o excêntrico investigador, seu companheiro Watson e todos os crimes fantásticos e bem narrados, Conan Doyle também se dedicou com afinco à ficção científica (veja-se, por exemplo, O mundo perdido (1912), que inspiraria o sucesso cinematográfico Jurassic Park)  e principalmente aos romances, novelas e contos ditos históricos. Como é o caso dos "Contos de piratas", que giram em torno de piratas que realmente existiram - Conan Doyle se ocupou somente em recriá-los, e às suas aventuras, com toda a força narrativa que usa em seus policiais e histórias de suspense, técnicas de quem escreveu durante muitos anos histórias para jornais. 
O livro conta, inclusive, com pequenas biografias de piratas envolvidos nas histórias, trabalho do organizador e tradutor Eduardo San Martin.

Por fim,  saindo do campo da literatura de ficção para o campo das Ideias... este mês também lançaremos os escritos "A questão do fim da arte em Hegel", do professor do departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo Marco Aurélio Werle, que atualmente ministra um curso sobre a Estética na filosofia alemã, desde o Romantismo ao pensamento de Hegel. Só por si, o tema já é polêmico, e diversas vezes o "fim da arte" foi proclamado ao longo dos últimos dois séculos. Mas as diversas perspectivas de seu enterro sempre determinaram a direção da sentença, isso é, se a arte teria de fato seu fim, ou se se fundiria a outras instâncias da vida e da sociedade, etc. A forma como tal problema figura na filosofia de um dos mais importantes pensadores de todo o ocidente traz consigo o local da arte em seus planos e ideias sobre a humanidade.
Há algum tempo Werle já se ocupa da parte do pensamento de Hegel voltada à Estética, parte da filosofia que se consagrou nos finais do século XVIII como discurso sobre "as belas artes" e seu papel filosófico; colaborou na tradução dos "Cursos de estética" (Edusp, 1999 - 2004),  e também publicou o livro "A poesia na estética de Hegel" (Humanitas, 2005). Mais que um discurso especializado sobre uma matéria filosófica qualquer, a proposta do livro, ao abordar a questão da arte na visão de um grande filósofo,  envolve todos aqueles a quem a arte possa despertar interesse ou paixão. Apesar de crítica de arte exercer, hoje, seu monopólio absoluto sobre o pensamento artístico, o pensamento filosófico ainda tem muito a nos dizer sobre o que exatamente a arte significa para as nossas vidas.


Enfim, são basicamente esses três. Há ainda, como coloquei na penúltima postagem, a reedição da Trágica história do doutor Fausto, que volta agora às livrarias num formato maior, mais bem acabado, muito bonito, enfim. Por enquanto é isso.

Boas leituras 

 

 

 

 

 

Naqueles morros, depois da chuva

Um romance histórico traz em si duas grandes dificuldades: o risco da chatice do texto histórico, de cunho acadêmico e cheia de informações tão detalhadas quanto inúteis, e a liberdade excessiva do romance, que, mesmo que revele as capacidades do escritor, não condiz em princípio com uma pesquisa profunda sobre eventos e dados estritamente históricos, documentados.

Escrever um bom romance histórico, articulando a a riqueza do romance e a profundidade da história (no caso, a história da ocupação de Goiás, que hoje abriga nossa capital federal), é uma proeza literária notável, que o escritor goiano Edival Lourenço conseguiu sem cair em nenhum desses pecadilhos mencionados. O que dá força e deleite à leitura, em primeiro lugar, é a linguagem rica, sem pedantismos ou excessos, vinda da própria experiência do autor com a fala nos garimpos e campos goianos, misturada à apropriação da linguagem de relatos e documentos da própria época, o começo do século XVIII. Tudo isso se funde num relato característico, em que o próprio estilo cria o espaço da narrativa e revela, em cada linha, a intensa pesquisa que Edival realizou, não só de historiadores que escreveram sobre o tema, mas também de registros guardados na Torre do Tombo e do Conselho Ultramarino, em Portugal.

O tipo que Edival cria para narrar sua história (aliás, nossa também)  é outro elemento importante para a fluência e convencimento do texto. Pois é através dele, ou seja, do filho bastardo do bandeirante Anhanguera, "o Diabo Velho",  e de sua visão das coisas é que a narrativa nos chega, com aquela graça característica dos bons contadores de história, preocupados em serem interessantes e, muito importante, convincentes.... sem deixar de inventar um ou outro detalhe, como ele deixa claro:

Fica, portanto esclarecido ainda que inúmeros fatos que presenciei ou de que obtive informações fidedignas, dos quais não me separa nenhum véu de dúvida, não tive, no entanto, o pudor de lhes aplicar reparos de adequações, retirar as cascas supérfluas, lixar os calos e disfarçar as manchas, aparar, fazer alguns entalhes, polir as arrelias, espanejar as carepas e lhe espargir algum realce de verniz, de sorte a ganhar encaixe, proporção, coerência, harmonia, beleza apreciável. Certos fatos, na crueza de seu estado, por mais ricos e verdadeiros que se apresentem, não se prestam a construir uma boa história em que alguém possa acreditar e senti-la com o vigor do coração, transcendendo para a alma. Que possa postular instância de arte, em que homem possa ver e refletir-se.

É bom lembrar que se trata somente do primeiro livro de uma já planejada triologia, acerca da história da ocupação de Goiás, ou melhor, das Goyazes, e que o talento e a pesquisa de Edival ainda vão nos trazer outros bons romances. Coisa notável, ainda mais se pensarmos o quão rica e desconhecida é a nossa história, e como temos poucos romances históricos que se proponham a desbravá-la decentemente.

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Demonismo, e o Doutor Fausto

Anjo mau:

Prossegue, Fausto, na famosa arte,
Que contém os tesouros da Natura.
Sê tu na terra o que Jove é no céu,
Deus e senhor dos elementos todos.

 Fausto:

Como este pensamento me assoberba!
Espíritos trarão quanto eu deseje?
Darão resposta a todas as minhas dúvidas?
Farão quanto eu mais louco empreender?
Direi que à Índia voem pelo ouro,
E rebusquem no Novo Mundo os cantos
Por doces frutos, rara especiaria.
Hão de me ler filosofia estranha,
Contar segredos de estrangeiros reis,
Toda a Alemanha hão de murar de bronze,
Farão que o Reno cerque Wetenberg,
Hão de as escolas rechear de sedas,
Fundos terei para recrutar soldados
E da pátria expulsar de Parma o príncipe,
De todas as províncias ser rei único;

 (Cristopher Marlowe, A história trágica do Doutor Fausto, tradução de A. de Oliveira Cabral)

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http://www.hedra.com.br/home/index.php?PHPSESSION_HEDRA=sess&id=1&livro_id=116&area[]=catalogo&area[]=detalhes


A personagem do estranho médico, jurista, teólogo, filósofo, astrônomo, versado em grego e latim, mas mesmo assim insatisfeito com os próprios conhecimentos, e tentado a algo muito além, pode até ter se consagrado pela pena de Goethe, que levou praticamente toda a sua vida para a conclusão da obra, em duas partes. Mas não significa que tenha trabalhado sozinho, nem que mereça todo o mérito pela sua grande criação.

Na verdade a história do homem que vende a alma ao Diabo já existia desde os séculos XV e XVI, em meio às lendas e histórias populares das terras germânicas. Foi inclusive no meio de uma feira, numa encenação de teatro de marionetes, que Goethe teria contato com a lenda pela primeira vez, e de onde teria tirado a sua famosa versão da história.

E é difícil não vislumbrar, como Goethe (e depois dele outros, como os músicos Gounod e Mahler), alguma interpretação maior, alguma força expressiva para a condição do homem pela vontade de poder, de conhecimento ilimitado, que tem em Fausto a sua realização máxima... mas pelo preço de sua própria alma, entregue a Mefistófeles. Mas se em Goethe, como em Mahler, a história assume uma feição filosófica, cujo desfecho é a redenção de Fausto, Marlowe tem seu próprio foco, muito distinto e de duzentos anos antes.

Ao lado de Shakespeare, Cristopher Marlowe foi um dos grandes dramaturgos do período Elizabetano, era de ouro da cultura inglesa e lembrada como "os bons tempos da rainha Bel". Seu drama, então, é contemporâneo de boa parte dos de Shakespeare, e à altura deles em profundidade e força, e era frequentemente representado quando o autor ainda era vivo. Mas o tema da necromancia, das artes ocultas e da magia negra certamente possuía, em seu tempo, um significado distinto daquele de Goethe, gerado no século das Luzes.

Nos séculos XVI e XVII a magia e os demônios, se não ainda existem, foram esquecidos há muito pouco tempo. Daí a ênfase a minúcia com que Marlowe descreve os rituais e livros utilizados por Fausto na sua ânsia de encontrar os espíritos do inferno, com muitos símbolos, desenhos, palavras de conjuração e escritos secretos. E também a natureza dos desejos de Fausto após vender sua alma, ligados acima de tudo aos conhecimentos da nascente astronomia, às descrições do Inferno, às grandes figuras do poder europeu da época: Carlos V, um dos maiores Habsburgos, rei de terras da Espanha à Alemanha, e o papa, de quem doutor Fausto, invisível, rouba o jantar e derrama o vinho.

E mesmo o último desejo de Fausto, encontrar a maravilhosa Helena, que motivou a guerra de Troia, possível metáfora para a cultura antiga. Mas suscita muitas interpretações. O pensador espanhol Miguel de Unamuno em seu "Do sentimento trágico da vida" (que lançaremos em breve), grande admirador do texto de Marlowe, por exemplo, escreve:

 este trágico doutor, torturado por nossa sina acaba encontrando Helena, que não é ninguém mais, embora provavelmente Marlowe não suspeitasse, que a Cultura renascentista. E há no Fausto de Marlowe uma cena que vale por toda a asegunda parte do Fausto de Goethe. Fausto diz a Helena: "Doce Helena, torna-me imortal com um beijo - e a beija. Teus lábios sugam minha alma; olha como foge! Vem, Helena, vem; devolve minha alma! Quero ficar aqui, porque o céu está nestes lábios, e tudo o que não é Helena, escória é".

E ainda coloca:

O imortal doutor Fausto que nos aparece já no começo do século XVII, em 1604, graças à Renascença e à Reforma, por obra de Cristopher Marlowe, é o mesmo que será descoberto por Goethe, embora seja, em alguns aspectos, mais espontâneo e mais fresco. 

Walt Whitman - Folhas de Relva

Whitman

http://www.hedra.com.br/home/?PHPSESSION_HEDRA=sess&id=2&livro_id=387&area[]=catalogo&area[]=detalhes

"Uma canção da terra que rola, e de palavras adequadas,

Você pensava que eram aquelas as palavras, as linhas no alto? As curvas,                                                                                                 [os ângulos, os pontos?
Não, não eram aquelas as palavras, as palavras substanciais estão no chão
                                                                                                  [e no mar,
Estão no mar, estão em você.

Você pensava que eram estas as palavras, os sons gostosos que saem da boca
                                                                                  [de seus amigos?
Não, as verdadeiras palavras são mais gostosas do que elas."

(W. Whitman, Uma canção da terra que rola. Trad. Bruno Gambarotto)

Dispensando elevações e grandiloquências, o verso de Whitman parece falar direto às praças, aos comícios, às concentrações públicas onde os homens se veem como irmãos. A palavra "camarada", muito importante à criação do poeta americano, é clara nesse sentido: através dela o autor evoca o leitor, o amigo que morreu, o companheiro de guerra - um interlocutor que dá sentido ao seu verso. Pois a palavra é para ele.

A simplicidade de seu verso fazia parte de um projeto maior, de expressão combinada de sua própria personalidade e a realidade em que vivia. Em suas palavras, um
"sentimento ou ambição de articular e expressar fidedignamente em forma literária ou poética, e de maneira inflexível, minha própria Personalidade física, emocional, moral, intelectual e estética, em meio aos - e registrando-os - mais importantes fatos e o espírito de seus dias imediatos e da América de então
América desde um momento crítico, a Guerra Civil (1861 - 1865), até a sua afirmação como nação poderosa da democracia, tempo de gestação desde o original de 1855 até a edição final, "do leito de morte", de 1891. Tal sinceridade poética, como um projeto de vida, implicou não só num lirismo todo novo, pioneiro no verso livre, mas também em temas delicados e até ofensivos ao público americano. As acusações mais graves para o conservador público americano foram as de depravação e mesmo de homossexualismo, provocados pela abertura a descrições claramente carnais, odes a prostitutas, e pelo amor sincero com que Whitman realiza seus versos aos companheiros de guerra e de vida

"Danço com as dançarinas e bebo com os bêbados,
Os ecos atendem aos nossos indecentes chamados e escolho o homem mais vil
                                                        [para minha mais profunda amizade, 
Que seja ele um fora-da-lei, que seja rude, ignorante, ele há de ser condenado pelos  
                                                                                         [demais por seus atos,
Não fingirei mais, por que deveria me apartar de meus companheiros?
Ó escória, ao menos não os tomo como escória,
Corro de encontro a vocês, estou entre vocês e serei seu poeta,
Serei mais para vocês do que para quem quer que seja."

(W. Whitman, Momentos ao natural. Trad. Bruno Gambarotto)

A poética de Whitman, reunida na edição final de "Folhas de relva", traz em si a dimensão de sua própria experiência (o poeta morreria com 75 anos), como um grande  canto de louvor à vida em cada detalhe, e a isso se prestam sua força e simplicidade, tão bem recriados na tradução de Bruno Gambarotto, a primeira do livro integral em língua portuguesa. 

PS: O livro está sendo sorteado pelo "Digestivo cultural" no link
 http://www.digestivocultural.com/editoriais/release.asp?codigo=397&titulo=Promocao_Folhas_da_Relva
não precisa inventar nada nem declarar seu amor, é só se inscrever.

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Retomando

Olá a todos os seguidores e interessados!

 

Após quase três meses de recesso nas redes virtuais, nós da Editora Hedra estamos voltando à praça, isto é, à comunicação direta. Vamos trazer trechos de livros, informações de dentro da editora, entrevistas com autores, tradutores e colaboradores, projetos de lançamento e tudo o mais que possa interessar ao nosso principal objetivo: o livro, e sua divulgação, como portador da cultura humana.


Desde já peço, aos que aqui nos leem, que também colaborem com sugestões, dúvidas e pedidos, para construirmos este espaço com o interesse de todos.

Nos vemos por aqui.


Pedro Augusto